Não sei vocês, mas o lugar onde eu tenho as melhores idéias e os melhores pensamentos costuma ser o banheiro. Acho que todo o clima de limpeza, reciclagem interna, e botar pra fora inspiram alguns pensamentos que, dentro daqueles metros quadrados de azulejos cor de rosa antigo, ganham um momento de importância.
Estava eu tranquilamente escovando os dentes e lavando o rosto, no ritual noturno costumeiro, pensando sobre sentimentos que se fizeram muito constantes nos últimos dias, quando concluí que todo aquele misto de vontades e sensações só existiam e ganharam força por dois motivos: tenho saído pouco de casa e ando muito exigente. Com tudo e todos. Ou tenho saído pouco de casa porque ando muito exigente, ou enfim, algo neste gênero. E foi aí que veio a explosão. Mais um dia se passou, e mais perto estou de ser um deles. Pior. Esse lance de sair pouco e ser exigente, é um monte de passos mais perto de ser ela. A personificação do meu medo. (ela é uma pessoa de quem eu gosto muito, por quem tenho grande admiração profissional, e a quem devo a vida, mas também é alguém que reúne muitas – se não todas – características a que fazem deveras difícil de se lidar e conviver.)
Há meses que venho notado mudanças no meu comportamento que me deixam mais e mais perto de, de fato, me tornar uma pessoa parecida com meu pior pesadelo. Amigos que convivem comigo diariamente e estiveram bastante presentes neste último ano (exato, 365 dias mesmo, não pula um!) puderam notar a variação de humor e atitudes pelas quais eu passei. Mas o que me incomodou perceber é como, apesar de ter consciência do monstro que estou me tornando, até hoje não consegui fazer nada pra tentar reverter a situação. Vou aos poucos tentando resgatar minha real “persona”, e em muitas ocasiões sinto sucesso, mas de maneira geral continuo me sentindo perdida e com medo de me perder mais. Uma hora você tem que admitir que saiu demais do seu caminho e está perdido na selva. Acho que eu estou bem nesse momento. Perdida na selva, no escuro, no frio e no sereno, e sem a menor idéia de como pelo menos fazer uma fogueirinha amiga pra ajudar a passar a noite.
Não faço nem idéia de pra onde atirar e, por isso, não atiro em nada e continuo perdida. Não sei o que fazer da vida para encontrar um novo rumo que me agrade, ou que pelo menos pare de me aproximar da personalidade cruel que este mercado marketeiro me molda a ter.
Paro pra pensar se eu não estou barrando idéias, criando bloqueios para soluções, por medo de começar alguma coisa do zero. De começar tudo de novo, quem sabe até uma nova faculdade, e passar por uma experiência que, se bem me conheço, vai me fazer desistir de tudo logo logo. Bom, posso mesmo estar fazendo isso, mas percebo que na realidade não existe um medo de começar de novo, mas sim uma leve vergonha por não saber, com esta idade, o que quero da vida. Por outro lado, me conforta ver que vários amigos – inclusive vários daqueles que eu sempre julguei serem os mais bem resolvidos profissionalmente da turma – estão passando por crises similares. Deve ser o surto do ¼ de idade. Curiosamente, não muito tempo atrás, o Toni veio com estes pensamentos e eu retruquei com a frase mais agradável que me ocorreu: don’t feel guilty if you don’t know what you want to do with your life. The most interesting people I know didn’t know at 22 what they wanted to do with their lives, some of the most interesting 40 year olds I know still don’t (Baz Luhrmann, Wear Sunscreen). Mas Toni me venceu respondendo que sim, mas mesmo assim era bom pelo menos ter uma luz, um rumo, nem que meio mais ou menos, pra ir seguindo. Mesmo assim, todos com quem começo esta conversa ou exponho estes pensamentos conseguem somente responder e encerrar o assunto com um honesto porém clichê “é… eu sei como você se sente”. E talvez aí esteja a fonte do problema e o espaço para a solução. Do que eu sinto falta é de alguém que fale “olha, sei como você se sente, por que você não tenta tal coisa? E se bla bla bla? Vem comigo”. Quando você ta com dor de cabeça todo mundo tem uma opinião e um pitaco pra dar, mas quando você joga temas mais abstratos é impressionante como ninguém se importa mais. Bom, mas ficou parecendo que eu quero alguém que decida as coisas por mim. Não é isso. Quer dizer, veja, seria tudo muito mais fácil e prático se fosse só seguir as ordens e orientações (meu lado slave realmente é muito mais forte que o lado máster), mas obviamente não quero isso. O que preciso é de um corrimão. O corrimão é uma coisa que está ali do seu lado sempre, mas que não anda por você. Se você não der o passo pra frente, não chega a lugar nenhum. Você vai caminhando e seguindo e se em algum momento houver uma hesitação, uma dúvida em relação ao rumo, é só esticar um pouquinho o braço pro lado e lá está ele, o fiel amigo corrimão, sempre ao seu lado pra dar aquela dica de mais ou menos como você deve ir. Porque o corrimão dá só uma sugestão de caminho (são só orientações!), você pode muito bem andar livre, leve e solto mais longe da borda.
E é isso. Achei que foi um bom pensamento noturno, um bom encerramento de mais uma semana atrapalhada e corrida. Meu deus, o que foram essas duas últimas semanas? Foi um entre-feriados bem do infernal, barrabaz! Mas pensar isso me acalmou um pouco. Fez parar aquela palpitação do peito. Só preciso achar meu corrimão. Provavelmente essa é a parte mais difícil de todo o trajeto, mesmo porque, como bem disse, estou saindo pouco e ando muito exigente. Mas eu vou sair dessa bola de neve de complicações e agarrar à primeira chance de respirar um ar novo. Ufa.